Ninguém sabia de nada. E foi exatamente por isso que obedecer virou lei

Ninguém sabia de nada. E foi exatamente por isso que obedecer virou lei

O silêncio de Anthony Fauci diante do Senado americano não prova as acusações contra ele. Prova outra coisa, mais incômoda: entregamos a decisão sobre a liberdade de bilhões de pessoas a uma autoridade que hoje prefere não responder.

Anthony Fauci foi intimado pelo Senado dos Estados Unidos e invocou a Quinta Emenda mais de cem vezes. Nas redes sociais, aquilo virou confissão. Não é. Silêncio não condena ninguém, e quem defende o devido processo quando o acusado é do seu lado precisa defendê-lo também quando não é.

Mas há uma pergunta que o silêncio dele devolve ao debate, e essa pergunta não depende de nenhuma confissão: por que um homem que passou anos afirmando ter a ciência do seu lado prefere hoje não falar sobre o que fez?

Não escrevo isto como investigador de laboratório em Wuhan. Escrevo como cidadão brasileiro que viveu a pandemia numa cidade da Amazônia, viu de perto o que foi decidido aqui e observou o mundo inteiro sendo reorganizado a partir de recomendações que saíam de gabinetes em Washington e Genebra.

O ponto de partida honesto

Em 2020, ninguém sabia de quase nada. Isso não é acusação, é descrição. Era um vírus novo, e a incerteza era real, legítima e inevitável.

O problema nunca foi a incerteza. Foi o que se fez com ela.

Diante do desconhecido, havia dois caminhos possíveis. O primeiro era admitir publicamente que se estava trabalhando com hipóteses, pedir cooperação voluntária, explicar o que se sabia e o que não se sabia, e ir corrigindo o curso conforme os dados chegassem. O segundo era transformar hipóteses provisórias em verdade oficial, tratar toda dúvida como sabotagem e usar o aparato do Estado para forçar obediência.

Escolheram o segundo. E o custo dessa escolha ainda está sendo pago em desconfiança.

Fauci já havia reconhecido, em depoimento anterior, não conhecer estudo específico que sustentasse a regra do distanciamento de dois metros, e classificou a medida como empírica. Uma regra empírica é uma decisão administrativa razoável em meio à névoa. Uma regra empírica não é fundamento suficiente para fechar escolas, igrejas e pequenos negócios, nem para separar famílias em funerais.

A distância entre o que era e o que foi apresentado ao público é o cerne do problema. E o silêncio de agora apenas sublinha essa distância.

O Brasil não é nota de rodapé nessa história

Aqui a disputa teve um formato próprio, e é desonesto contar essa história como se o Brasil fosse apenas uma província do modelo global.

Não houve lockdown nacional. O governo federal era contrário ao fechamento generalizado, e as restrições mais duras vieram de governos estaduais e municipais, respaldadas pelo Supremo. O país virou um mosaico: cada prefeitura com sua regra, cada estado com sua interpretação, e o cidadão comum no meio, tentando adivinhar se podia abrir a loja na segunda-feira.

Muitas prefeituras adotaram protocolos de tratamento precoce. A minha cidade foi uma delas. Aqui houve um detalhe que quem escreve sobre o assunto no Sudeste do país raramente entende: no meu estado, cloroquina não é droga exótica. É medicamento de rotina contra malária, distribuído em posto de saúde, tomado por gente comum a vida inteira. O perfil de segurança dela é conhecido por quem mora aqui de um jeito que não é conhecido por quem só a viu virar símbolo político em 2020.

Isso não prova que ela funcionava contra covid. Essa é uma discussão que ficou para os ensaios clínicos, e não é a minha. Faço questão de dizer, porque minha crítica não depende disso.

O que aquele contexto mostra é outra coisa: o pânico moral em torno de um comprimido barato e conhecido foi desproporcional ao risco real dele, e foi seletivo. Virou marcador de tribo política, não questão clínica.

O episódio que ninguém aqui esqueceu

Em 9 de julho de 2020, um senador do meu estado fez uma transmissão ao vivo em que elogiou os três médicos do comitê estadual de enfrentamento à covid, disse que o protocolo por eles adotado, usado especialmente pela prefeitura da capital, havia impedido que muitas mortes ocorressem no estado, e anunciou que proporia comendas aos três no Congresso Nacional. Aquele protocolo previa ivermectina e hidroxicloroquina.

Menos de um ano depois, o mesmo senador era vice-presidente da CPI da Covid, tratando o mesmo tipo de protocolo como imprudência criminosa.

Quando o vídeo voltou a circular, a resposta foi que ele estava homenageando profissionais da linha de frente, não os medicamentos, e que a data importava porque a evidência mudou. A data importa mesmo. Mas a evidência sobre a hidroxicloroquina em julho de 2020 já era ruim, e ele não estava homenageando genericamente heróis de jaleco. Estava nomeando um protocolo específico e atribuindo a ele vidas salvas.

O que mudou, entre uma coisa e outra, não foi a ciência. Foi a conveniência política.

Registro isso não para atacar aquele senador, mas porque é o exemplo mais limpo que conheço de como a régua era móvel. A mesma conduta era heroísmo ou negligência dependendo de quem estivesse na foto.

Sobre os números

Fui um dos que acompanharam os registros de cartório durante a pandemia e estranharam o que via. Mortes atribuídas a covid subiam enquanto várias outras causas caíam de forma abrupta, e essa recomposição nunca foi explicada ao público de maneira transparente.

Existem explicações legítimas para parte disso. Menos circulação significa menos acidentes de trânsito. Isolamento reduz a circulação de outros vírus respiratórios. Casos limítrofes de pneumonia foram reclassificados. Nada disso é conspiração.

Mas há um problema estrutural que continua de pé, e ele não depende de má-fé: quem produzia os números era exatamente quem precisava deles para justificar as restrições. Não houve auditoria independente, contemporânea e pública dessa contabilidade. Em qualquer outra área, submeter o auditado ao próprio papel de auditor seria considerado inaceitável.

Não afirmo que inventaram mortes. Afirmo que ninguém verificou de forma independente, e que a ausência de verificação, num momento em que aqueles números fundamentavam a suspensão de direitos, foi uma falha grave.

A assimetria que explica quase tudo

Enquanto o cidadão comum era multado por caminhar na praia, chefes de governo e autoridades sanitárias foram flagrados em jantares, festas e reuniões que eles próprios haviam proibido. Não em um país. Em vários.

Enquanto pequenos comerciantes perdiam o negócio de uma vida, grandes redes seguiram abertas como serviço essencial, plataformas digitais bateram recordes de lucro e nenhum servidor público estável ficou um mês sem salário.

E enquanto trabalhadores honestos eram impedidos de abrir a porta da loja, governos anteciparam a saída de presos para reduzir a aglomeração carcerária. Havia justificativa sanitária para isso. Mas a imagem que ficou é inescapável, e ela resume minha visão sobre como o Estado funciona.

É muito mais fácil para o Estado cobrar, restringir, proibir e manipular o cidadão comum, honesto e pagador de impostos, do que enfrentar o bandido. O cidadão não reage, não troca tiro, aceita. O bandido é perigoso e caro. Então a conta sobra sempre para quem só quer trabalhar e viver em paz.

A pandemia não criou essa lógica. Apenas a exibiu sem maquiagem, em escala global e em tempo real.

O que eu de fato defendo

Não defendo que as vacinas fossem inúteis. Elas reduziram doença grave e morte, sobretudo entre idosos e pessoas vulneráveis, e minha família de setenta e poucos anos tinha razão de considerar isso.

Não estou aqui defendendo a ivermectina. Também não estou dizendo que ela não servia para nada. Tomei, minha família tomou, ninguém morreu, e sei que uma família não é um estudo.

Defendo algo mais simples e mais difícil de negar: o ônus da prova era de quem queria restringir, não de quem queria escolher.

Para recomendar, basta que os benefícios provavelmente superem os riscos. Para obrigar, sob ameaça de perder o emprego, a matrícula ou o direito de entrar num supermercado, o padrão precisa ser incomparavelmente mais alto. Exige benefício coletivo demonstrado, e não presumido. Exige transparência sobre o que não se sabe. Exige alternativa menos restritiva. Exige prazo, revisão e reparação de quem for prejudicado.

Quase nada disso foi cumprido. E o médico que discordasse do protocolo oficial respondia a processo, quando a prescrição fora de bula sempre foi prerrogativa clínica reconhecida.

A pergunta correta nunca foi se os não vacinados estavam certos. Muita gente recusou a vacina por razões razoáveis e muita gente recusou por razões fantasiosas, e as duas coisas coexistiram.

A pergunta é se pessoas deveriam ter sido coagidas, excluídas e silenciadas enquanto as próprias autoridades ainda trabalhavam com informação incompleta e, em alguns casos, já sabiam disso internamente.

Minha resposta é não. Não precisava haver fraude para que houvesse abuso. Bastava a certeza fingida.

Fauci não confessou nada. Talvez nunca confesse. Mas o silêncio dele diante de um Senado hostil é um lembrete útil de que nenhuma autoridade, científica ou não, deveria voltar a ter aquele poder sobre a vida de gente que ela nunca conheceu.